terça-feira, 13 de dezembro de 2011

microclimatico, eu, ou a negação

A manhã está fria mas o ambiente dentro da sala é aquecido, está um calor insuportável que mais ninguém parece sentir, já tirei o casaco há algum tempo, a camisa começa a colar-se ao corpo, estou a suar abundantemente, sinto gotas de suor escorrer pelo couro cabeludo, é uma sensação estranha. Ninguém parece notar, os minutos arrastam-se, pergunto à pessoa sentada ao meu lado esquerdo sobre a temperatura, responde-me de dentro do seu casaco que não está calor nenhum,  mas não demonstra notar que eu suo como se estivesse a correr a maratona, ninguém parece notar, e eu lá vou limpando com um lenço as gotas que me correm pela cara.
Será que estou a entrar na andropausa? Foda-se, só me faltava essa agora, e pelo sim pelo não decido tentar uma erecção, a conversa ronda nem sei bem o quê, e não me consigo concentrar nem numa coisa nem noutra, talvez seja melhor desistir da erecção e concentrar-me em qualquer coisa, uma caneta, rabiscar qualquer coisa, pequenas figuras geométricas que se ligam umas às outras, uma mistura de teia de aranha e floco de neve visto ao microscópio, isto ajuda-me a concentrar.
Já não sinto tanto calor, decido até voltar a vestir o casaco, e a reunião continua, estranho que ninguém tenha demonstrado reparar que há minutos atrás o suor me corria pela cara, não tenho bem a noção do tempo que passou, e começo a duvidar do que se passou há minutos, não sou dado a suores frios, e pronto, que caralho, acontece-me cada uma.
Já afirmei aqui e algures que tinha tido a sensação de que este seria um ano sem fim para mim, portantos se eu não aparecer mais é porque morri, aliás, acho que tal ainda não aconteceu porque nem céu nem inferno me querem por lá, e o purgatório está cheio.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O desassossego de ser humano

De pé em cima de uma duna olhava em volta, algo desalentado via de um lado uma planicie sem fim, e do outro, recortados no horizonte, cumes de incontáveis dunas.
Naquele deserto não havia sede nem fome, não havia calor tórrido nem frio insuportável, havia o sol que brincava às escondidas com as sombras, havia o sitio de onde tinha vindo e o sitio para onde se dirigia, havia o lado da planicie, e havia o lado das dunas.
A falta de alternativas facilita sempre as escolhas, e num sitio onde a unica coisa a fazer é continuar, só resta escolher a direcção. Ou a planicie sem fim, sem surpresas, onde só as miragens em sonho quebram a monotonia, mas sempre a certeza da ausência de expectativas, ou escolher uma outra duna para subir e constatar que do outro lado não há nada a não ser o contorno de incontáveis dunas recortadas no horizonte, cada uma escondendo algo que não se vê, mas que pela experiência pode deduzir-se que nada lá estará, numa verdade sempre ensombrada pela incerteza. 
A escolha entre um caminho de desérticas certezas, ou um caminho de expectativas goradas.
Quem sou eu, perguntava-se, enquanto olhava para os pés que o levariam para onde a sua natureza indicasse. 
Sou um ser humano, nasci coberto da ambição de ter, como poderia optar por um caminho de certezas, em que só sonharia com miragens, em detrimento da escolha de um caminho de expectativas, de uma quase certa desilusão, mas onde posso sonhar com incertezas? A vida de um gajo poderia ser bem mais fácil, mas continuarei a dar significado à minha condição de ser humano, decidiu, e escolheu outra duna para subir.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Agora é que é, dizem uns, ao bocejar céptico, de outros.

Ainda não será desta que vai haver xeque-mate, mas está cada vez mais próximo, a margem de manobra é cada vez menor, e são poucos os bastiões que ainda erguem intransigências à tomada de poder pelo eixo franco-alemão, os ingleses lá na ilha da libra arrebitam cachimbo, mas não devem parecer grande impecilho quando os paises do sul do euro-continente estão quase a implorar que os governem.
Mas no meio de toda esta cena que um dia a história se encarregará de contar segundo a perspectiva do vencedor, não deixa de ser uma cena algo caricata o marido da senhora Bruni todo saltitão ao lado da bonacheirona Merkel.
O Churchill ainda que vá, mas o de Gaulle não merecia isto.
Estará o Coelho à altura do Salazar? 
Acho que não, mas em contrapartida temos um personagem com poderes na cena internacional, Portas, o homem invisivel.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Triste fado para uns, património material para outros

Pode agora o fado ser património imaterial da humanidade, mas não há fado como o nosso.

Excerto de uma conversa:

- Vais pagar?
- Ainda não sei, se calhar vou, o pessoal que conheço pagou todo, e o não sei quantos não pagou e reprovou.
- Então e quanto é?
- 200 aereos!
- Já perguntaste?
- Não, mas é o que todos dizem que pagaram.
- Então, mas pagas a quem?
- Paga-se ao instructor, e ele fala com o gajo que faz o exame.
- Então, mas o que te garante que o dinheiro chega ao gajo que faz o exame?
- Nada!
- Às tantas o instructor fica com o dinheiro. Se reprovares devolvem-te o dinheiro, não é?
- Sei lá, acho que não, o não sei quantos pagou, mas como fez uma asneira reprovou e não lhe devolveram o dinheiro, e quando foi novamente a exame, pagou de novo e dessa vez passou.
- Mas um gajo desses faz não sei quantos exames por dia, todos os dias, 200 euros , cum caraças....
- Às tantas dividem entre o instructor e o gajo que faz o exame.
- Então, e vais pagar?
- Não sei, se calhar....

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Carta ao Pai Natal

Querido Pai Natal,

Este ano não quero nada para mim, nem mal a ninguém.

Vai acumulando aí as minhas boas acções, e quando achares que são suficientes para me dares aquilo que eu sei que tu sabes que eu quero, deixa-me sabê-lo.

Até para o ano.

um abraço

terça-feira, 29 de novembro de 2011

um pouco do meu umbigo

Qual será o futuro da nossa espécie, voltaremos a regredir, vamos extinguir-nos nas próximas décadas, ou evoluiremos ainda durante centenas ou até milhares de anos?
Esta é a principal questão que me faço, muito mais do que questões sobre o meu futuro que há muito deixou de me interessar. De facto, e por estranho que pareça, se eu fizer um exercicio mental honesto de compilação das coisas em que projecto expectativas no futuro, não me descortino por lá, vejo familiares próximos e amigos, mas eu não consto da lista. Eu não fui sempre assim, já tive sonhos e projectos para mim próprio, mas confesso que não os vejo em lado nenhum. Não me estou a queixar, e até é um alivio esta constatação, é sinal que não ando a sentir falta deles, e certamente não precisamos daquilo de que não sentimos falta.

domingo, 27 de novembro de 2011

My name is Pot, JackPot ou talvez não

Sinto-me a transbordar de sentimentos, mas não os exprimo, por inépcia social ou por timidez, não sei, vivo com eles, entre eles, e quem diria?
Não adivinhará certamente tal coisa quem para mim olhe, apesar de eles existirem em cada pixel do meu ser.
Sinto-me, nesse aspecto, como o azeite e a água, uma fina camada superficial não se mistura com o que encobre, não importa a profundidade que possa existir, só se vê a camada superficial, fina, hermética e moldavel.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A Estrela ausente

Este é o octagésimo post deste blogue, e como não me apetece inventar vou antes constatar.

É só mais um balanço, coisa que fazemos a todo o momento, passamos a vida a fazer balanços, avaliações no fundo, mas agora a avaliação é em profundidade, no sentido de descortinar algum sentido nos 79 posts precedentes, e nem preciso de os reler para encontrar algo em torno do qual quase todos os posts giram, como se se tratasse de um sistema planetário, alguns posts são cometas, passaram como intrusos, nada tendo a ver com o resto, mas grande parte move-se na órbita de um mesmo ponto, assunto, ou seja lá o que for, que é para não atribuir nomes à estrela no centro deste blogue.

Não era essa a intenção inicial, nem nunca houve essa vontade premeditada, mas passadas tantas palavras não há outro balanço que possa fazer no que diz respeito à identificação do ponto em torno do qual isto gira.

Na verdade a melhor parte tem sido a dos comentários, mas esse balanço fica para outra altura, ou para quem os faz.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A ingratidão não é um dos sete pecados mortais, pois não?



Era uma vez uma menina que encontrou um pássaro muito ferido, quase de morte.
Pegou nele, levou-o para casa, e durante algum tempo tratou-o, alimentou-o e mimou-o com uma ternura que ele desconhecia.
Quando ela achou que o pássaro estava em condições de sobreviver pelos seus próprios meios, começou a deixar a janela aberta num convite à liberdade, mas ele preferia a doçura daquela prisão farta em ternura à agrura da luta pela sobrevivência em liberdade, e deixou-se ficar.
A menina, firme na sua intenção de devolver o pássaro ao seu meio, pegou nele e atirou-o pela janela, mas o passarito deu meia volta e antes que a menina conseguisse fechar a janela, já estava ele pousado no seu ombro a depenicar-lhe a orelha.
Para grandes males grandes remédios, pegou no pardal, atirou-o pela janela, e antes que ele voltasse, começou a apedrejá-lo e a gritar-lhe impropérios com tal firmeza que ele não teve mesmo outro remédio que não fosse ir chilrear para outro lado.
É fácil imaginar a saudade e o ressentimento a debaterem-se na cabecita confusa do passarito, que apesar das saudades da menina não perde a oportunidade de lhe largar uma caganita em cima sempre que pode.


sábado, 12 de novembro de 2011

Mais uma página em branco

Hoje o dia tem passado como o rasgar de uma página em branco, um rasgar lento em que sinto o som de cada fibra que se separa, e o tempo vai avançando pela folha em branco, lentamente, com pequenas mudanças de velocidade, pequenas curvas, sinto-me parte dele e ao mesmo tempo seu observador.
A meio da folha o tempo parou, o vento soprava excessivamente morno na direcção do mar, grandes ondas que só as gaivotas tinham vontade de surfar, com as asas imóveis em vôo rasante a curvas paredes de água, que avançavam com seus longos cabelos brancos penteados para trás pelo vento quente, até se despedaçarem em explosões de espuma branca contra o cinzento chumbo da água.
Depois o tempo voltou a avançar, e o dia continuou a passar estranhamente môrno, em branco, rasgando-se enquanto se inutiliza, passando.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O lado iluminado

Não é excitante estarmos no limiar de novos tempos?
Então não tivemos um ritmo de crescimento verdadeiramente impressionante nos últimos 100anos? E digo 100anos que é para não dizer 50!
Crescimento em termos de qualidade de vida, e não sejamos hipócritas com pensamentos filosóficos sobre o que é realmente a qualidade de vida. 

Agora, dizem aqueles que já agouravam a crise, acabou-se o balão de oxigénio para a sociedade ocidental, não dá, vamos ter que regredir, e apresentam argumentos sustentados em dados que de tão óbvios, até admira que já não tenham sido largamente difundidos em campanhas de informação da responsabilidade das autoridades.

A não ser que aconteça algo de novo, uma descoberta cientifica extraordinária, um "ovo de colombo", algo que traga novas fontes de riqueza, o que também pode acontecer, já aconteceu no passado, mas o quê?
Seja como for, para o bem ou para o mal, estamos certamente no limiar de grandes mudanças.

E apesar de tudo continuamos a querer ter filhos, o que é bom sinal.

domingo, 6 de novembro de 2011

O belho

Ele olha para mim, lá de baixo.
Quando estou nesta posição vejo-lhe os olhos e ele poderia ver os meus, se os seus tivessem essa função, a de ver, mas a função dos seus olhos sempre foi a de ajudar a ver.
Está ali no mesmo sitio há 2 anos à espera, e enquanto espera, se tivesse memória poderia lembrar tantos momentos, tantos lugares, foi quase um elemento da familia durante alguns anos. 
Quando chegou foi uma surpresa que fiz ao resto da familia, todos gostaram, foi quase como se tivesse chegado a casa com um cãozinho, quem gostou mais foram as crianças, ou melhor, diria mesmo que deliraram.
"Viu" as crianças passarem pela adolescência, fomos todos juntos para tantos lados, viu a familia separar-se, e um dia viu chegar o seu substituto, mas não foi deitado fora, ficou ali naquele sitio, onde o posso ver entre os ramos de uma palmeira, adormecido, com a promessa que ainda teria muitas aventuras com as crianças.
E lá continua, sem suspeitar que as crianças já não o são, antes são jovens adultos mimados que franzem o nariz ao empoeirado, mas pronto a acordar a qualquer momento, ao simples rodar da chave na ignição.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Nem só o herpes é para sempre

Eu acredito que as coisas ficam para sempre, tudo o que foi ainda é, não na sua essência fisica, mas pelo facto de ter existido como entidade fisica, ou como acontecimento,  mesmo que tenha sido completamente esquecido, que não reste registo, faz parte do todo, e como tal, nele tem o seu lugar cativo.

É um pensamento estranho este, até para mim, mas é uma realidade, e apercebi-me disso hoje, ao abrir as janelas da memória. Lá estavam pessoas, coisas, lugares, sentimentos, que já nem me lembrava que fazem parte de mim.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Cerimónia de entrega do Sem Prémio


Infelizmente a empresa de catering que tinha contratado para provir com bebidas e comidas, ao saber que o evento era aqui, recusou-se a vir.
Merdosos!
O Leonard Cohen deu uma desculpa esfarrapada, que aceitaria vir cantar, mas fazer o discurso de entrega do prémio, que não, não faria.
Pó caralho!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Sem prémio

Num novo estilo, proponho que, quem a isso esteja disposto, faça do seu comentário um candidato a vencedor de um concurso, cujo prémio será a publicação em post, neste mesmo local.

A democracia tem os seus constrangimentos, sendo assim as regras são:

1ª O post terá um titulo pré-definido, que é "Soul Predator". É em inglês, porque para além de dar um certo estilo, sim, que até as canções em inglês soam melhor, também tem outros ses, como por exemplo a ausência de género, dando por isso asas maiores à imaginação.
2ª O post será escrito em português, mesmo que na interpretação se pareça com chinês.
3ª Quem decide o vencedor, sou eu.
4ª Eu também posso concorrer.
5ª É ilimitado o numero de candidaturas de cada um.
6ª A data limite de apresentação de candidatura é, quando eu achar por bem.

Eram estas as regras, todas as 6.




De resto a forma de abordagem é completamente livre, como por exemplo :

- As baratas também têm alma, compre Soul Predator e elimine as baratas lá de casa.
ou
- Tem-nas guardadas em si, enchem-na e deixam-na tão vazia, todas a almas que roubou, sem querer.



Isto são dois exemplos, curtos, mas que espero demonstrem a abrangência de abordagens que são aceites a concurso.

O prémio?

domingo, 16 de outubro de 2011

Os Apagadores

Acabei de me iniciar na modalidade "rebobina, apaga".

Que modalidade é essa, perguntar-se-á quem passar por aqui os olhos, partindo, suponho eu, do imediato pressuposto de que o assunto são gravações, algo que passou e ficou registado num suporte que permite a eliminação de partes ou totalidade do registo.

Alguns, outros, com uma visão menos circunscrita da temática, alvitrarão logo que o assunto é mais abrangente, e ganharia pleno corpo se cobrisse também aquela habilidade tão rara e especial que alguns parecem ter, de aplicar esta técnica na própria vida, apagando de lá acontecimentos, pessoas, desenhando por cima, pintando novos relacionamentos como se naquela tela nunca tivesse havido outras paisagens, outros retratos.

Eu, não querendo ir por aí, que hoje a condenação não é caminho que me apeteça trilhar, eu que tenho o meu passado gravado de forma indelevel na galeria das minhas recordações, reconheço-me assim, mas não me acho por isso melhor que os "apagadores", e chego a invejar quem tem tal argumento para ser feliz.

Não, definitivamente ser "apagador" é algo que está para além das minhas capacidades, referia-me somente ao apagar de um post e sua substituição por este.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ou talvez esteja estatelado no sofá a ver programas atrás de programas

A água corre cristalina, chove mas já me acostumei à chuva, chove quase todos os dias nesta época do ano, e um gajo habitua-se, não sei se lhe chame capacidade de adaptação ou acomodação. 
Foi por me fazer esta mesma pergunta que estou aqui agora neste fim do mundo. Comecei a achar que me estava a acomodar ao trabalho de administrativo numa grande serração e decidi dar uma grande guinada na minha vida, já lá trabalhava havia uns anos, e podia dizer-se que conhecia bem o negócio, sabia o que poderiam valer determinadas espécies de árvores, e conhecia os meandros do negócio.
O plano era genialmente simples, e estava alicerçado na convicção de que tinha a oportunidade de mudar radicalmente de modo de vida, e a escolha, era uma vida em comunhão com a natureza.
Seria lenhador! 
O machado está agora pendurado por cima da lareira, faíscante, novo, nunca tive coragem de dar uma única machadada, quanto mais valiosa era a árvore, mais extraordinária me parecia.

Adoro estes dias de chuva, já fiz uma boa pescaria, talvez tenha apanhado uma lebre na armadilha, seja como for o jantar está assegurado, e será apreciado frente a uma lareira crepitante, e talvez me perca novamente nas lembranças de quando adorava passar os dias na praia sem fazer nada, enquanto me faz companhia a penumbra do meu reflexo na lâmina de aço do machado, nunca mais me senti sózinho ao contrário de quando vivia cercado de gente.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O cantinho do comentador

Abre-se assim um novo espaço neste espaço, um espaço em que os comentadores podem ter o seu minuto fama e dar largas à sua pancada.
Disse a Margarita,

Declaração de Liberdade e Independência de Opinião das Comentadoras do Fim do Mundo em Privado (2011)

Determinação do Primeiro Congresso Virtual, 11 de Outubro de 2011
Declaração unânime das três Comentadoras do Fim do Mundo em Privado.

"Quando, no decurso da História da Bloga, se torna necessário às comentadoras assumir, de entre os poderes do espaço virtual, o estatuto de igualdade que as Leis da Natureza lhes conferem, o direito e o respeito que lhes é devido perante as opiniões da Humanidade, urge, pois, que as mesmas declarem as suas razões.
Consideramos estas verdades por si mesmo evidentes, que todas as comentadoras são criadas iguais, sendo-lhes conferidos pelo Criador da Bloga certos Direitos inalienáveis, entre os quais se contam a Liberdade de Expressão, o Humor, a Linguagem Escatológica e a Busca da Felicidade. Que para garantir estes Direitos, são instituídos os Bloggers, derivando os seus justos poderes de acordos amigáveis. Que sempre que qualquer Forma de Administração de Blogue se torne destruidora de tais propósitos, as comentadoras têm o direito de dizer: “ qué isto, então e se fosses pró caralho, ou quê?” bem como a instituir mecanismos no Blogue, que assentem os seus fundamentos nesses princípios e do modo que lhes pareça mais adequado à promoção da sua Felicidade e Boa Disposição."

Fim do Mundo em Privado, 11 de Outubro de 2011

Anónimo Franklin, Isa Jefferson, Margarida Adams
(vai por ordem alfabética para não haver pruridos, ok?) 

Sobre o clima

Não sei o que dirão as estatisticas oficiais sobre este Outubro, mas na base de dados da minha estação meteorológica, não há registo de igual. 
Também não há razão para alarme, porque as minhas bases de dados têm para algumas coisas, uma capacidade de armazenagem que só encontra par na do pescado, a que não é alheio o facto de não ter a minima recordação de como estava o tempo em Outubro do ano passado.

Seja como for, e apesar dos incêndios e do bem que não trás à agricultura, abençoado seja este tempinho que nos tem calhado em sorte. 
Não estou com saudades nenhumas do Inverno, nenhumas mesmo, nem me interessam as justificações cientificas sobre as deslocações das massas de ar, e das altas e baixas pressões, nem as justificações populares sobre luas novas não sei quê, 30 dias um calor do caralho, interessa-me sim aproveitar.
Sim, interessa-me aproveitar, o fim do mundo aproxima-se, e pela temperatura não estamos a ir para o céu.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

SemAlternativa

Parecia fácil, um pé aqui, outro ali, uma mão a ajudar e o sentido era para cima até que olhei para baixo.
Agora descer está fora de questão e continuar a subir só piora a perspectiva de queda, manter-me num impasse até quando?

Ah pois é, eu já estive numa situação destas, posso ter feito figura de palhaço, como aliás gosto sempre de fazer, tudo me sabe melhor quando faço figura de palhaço e acabo por me safar, tal como foi o caso, lá me safei muito a custo.

Tenho-me safado sempre, até à data ainda continuo a conseguir olhar para trás, e seguir em frente.
Tudo se torna mais fácil quando não há alternativa.

domingo, 2 de outubro de 2011

Um lugar chamado amor

É assunto que tenho evitado, e por isso mesmo resolvi abordar.
Este assunto é por demais aborrecido de abordar, não porque seja assunto desprovido de interesse, bem pelo contrário, é dos assuntos mais fascinantes, e por isso mesmo já foi escalpelizado até à exaustão por poetas, escritores, pintores, musicos, por todo o género de artistas, e experenciado por tantos e vulgares mortais, que ganhou o estatuto de condição essencial para o estado de graça, para a felicidade.
No entanto nem todos temos o privilégio de o vivenciar em todo o seu explendor, tal como na vida, para uns, ele é um palácio, para outros um casebre, para uns é um lugar cheio de vida, para outros um lugar onde nada floresce.
Para mim é um lugar que já conheceu esperança, cheio de vida e projectos, mas agora tornou-se no local que aparece fotografado no header deste blog.
No dia em que mudar o header do blog, isto perderá algum sentido, como se fazer sentido fosse coisa que me assistisse.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A Ostra e a Flor

O  cordão das dunas desenhava a linha delimitadora do fim do mundo, na mente das duas irmãs, juntas desde que se lembravam, nada havia para lá daquelas dunas, só a morte, e era lá que o sol morria no final de cada dia.
De recordação, agora, pouco mais havia que o rosto moribundo da mãe a pedir-lhes que não fossem para lá das dunas, preso à retina de ambas, na noite escura, e em cada noite a jura silenciosa de que não iriam para lá da duna.
A fotografia esbatida de um homem muito sério, era a unica referência que tinham daquele que teria sido a figura paternal, e que tinha ele próprio perecido para lá da duna, engolido pelo fim do mundo, tinha-lhes contado a mãe pouco antes do seu olhar se ter afundado pela ultima vez na areia branca do entardecer.
Eram irmãs, mas ninguém diria, uma tinha o cabelo negro longo e maltratado, olhos negros onde não se distinguia a pupila, da íris, mas que brilhavam como a estrela mais brilhante, uma pele que deveria ter sido muito branca e macia, não tivesse sido a varicela que a atacou violentamente, deixando a irmã incólume, a irmã cujos olhos verdes reflectiam uma tristeza indefinível, a irmã que era de uma beleza tão indescritível como a tristeza do seu olhar. Cabelos amarelos, a pele perfeita, e um olhar perdido, sereno e triste receberam as primeiras pessoas que viam as irmãs, para além da mãe, a mulher louca que de vez em quando aparecia na povoação, a mendigar, e sobre quem pesava o passado de ter enlouquecido após o marido um dia não ter voltado da faina no mar.
Naqueles dias a noticia tinha feito capa de jornais durante tantos dias quantos a avidez por coisas deste género o permitiram, e depois perderam-se num asilo, perderam-se uma da outra, a de cabelos amarelos tinha sido adoptada em poucos dias, mas a de cabelos negros ficou por ali, e não permitiu que quem quer que fosse se afeiçoasse pela sua fealdade, a vida não foi fácil para ela, os dias sempre árduos, empenhada no bom funcionamento daquela casa abrigo, tornou-se ela própria parte da casa, confundiu a sua felicidade com a de todas as crianças que ajudaram, e um dia, muitos, muitos anos depois, voltaram a encontrar-se, as irmãs.
A que tinha sido adoptada, contou com um olhar triste que a sua vida tinha sido feliz, sempre rodeada por beleza, mas nunca tinha feito nada a não ser fazer parte da beleza que a rodeava, que agora toda aquela beleza estava a desaparecer, e perguntou :
- Lembras de como a mãe nos chamava? Nunca contei a ninguém. 
- Sim lembro, e também nunca contei a ninguém, eu era a ostra e tu a flor.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A musica e a dança

Dançar sempre foi uma daquelas coisas que eu sou incapaz de fazer, dançar na verdadeira acepção da palavra, porque abanar o capacete, ou até abanar o esqueleto, não é dançar, dançar é outra coisa, e é estranho que alguém como eu diga isto, eu que abano o capacete como se estivesse às cabeçadas a qualquer coisa que ninguém consegue ver, ou então agito o esqueleto como ramos abanados pelo vento, ao ritmo da musica, conforme posso.
Aqui há dias, poucos, num convivio de empresa, daqueles que começam com a maior parte das pessoas com um ar muito formal e acabam sabe-se lá como, às tantas lá andava o pessoal todo a dançar, grande parte mulheres a dançar com mulheres, grandes exibições de dança vindas dos mais improvaveis, até o presidente tinha estado a abrilhantar o karaoke, enfim, one of those days. Mas isto a propósito de eu não dançar, diverti-me bastante, mandei piropos a umas cinquenta colegas, que iam ficando mais giras à medida que a festa se adensava, mas dançar nem me passou pela cabeça, e hoje ao ver fotos do evento perguntei-me, mas porque raio também não dancei?
Tudo isto para perguntar, como é isso de dançar, sai assim naturalmente, como quem ri, ou é muita técnica?

domingo, 25 de setembro de 2011

Os primeiros

Dois irmãos gémeos, siameses, tinham nascidos há apenas um dia, e já estavam a ser operados. 
A operação parecia de simples execução técnica, tinham  sido feitos todos os diagnósticos possiveis, usados os meios mais sofisticados ao dispor, e a conclusão de todos os cientistas apontava no sentido da inevitabilidade e urgência da operação de separação dos gémeos.
Estavam inquietos os cientistas, porque circulavam boatos que os poderiam implicar em tramas menos claras, interesses que se moviam na sombra, e naquele tempo isso poderia fazer com se sentissem sobre brasas.
Dizia-se em surdina, por detrás das portas e cortinas, que aquilo não era obra do acaso, algo de obscuro estava por detrás daquele nascimento, algo que poderia mudar o futuro da humanidade.
Não era a primeira vez que nasciam gémeos siameses, invariavelmente morriam pouco depois de nascerem e eram vistos como resultado de maldições, como passagem do demónio pelo leito das infortunadas mães, no entanto este era o primeiro caso que os cientistas, mais conhecidos como curandeiros naquele tempo, achavam poder resolver, e se por um lado essa perspectiva lhes aguçava a curiosidade, também sabiam que bastava um arquear de sobrancelhas do Arcebispo, e a santa insquisição começava logo a juntar ramos sêcos para acender fogueiras.
Os gémeos estavam unidos pelo ânus, a operação foi um sucesso, os gémeos cresceram felizes, mas ficaram com sequelas que curiosamente se passaram a transmitir genéticamente, e foi aí que a humanidade viu nascer o hemorroidal. Certamente que se na altura se soubesse da elevada prevalecência desta maleita, entre o clero nos dias de hoje, que o Arcebispo teria arqueado a sobrancelha.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

I just call to say I love you...

Vão pó caralho pá, vós que vos alimentais dos meus pensamentos, que me atormentais o sossego, inde por-vos num porco pá, ok?

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Cá se fazem, cá se pagam

E eis que ressuscitei ao 3º dia, após dois dias de ressaca.
Malfadada sorte que para além de me ir roubando vida, dia após dia, ainda me subtrai mais um dia por cada noite a dobrar, ou a triplicar, ou sei lá a que expoente se elevou a noite, iluminada por lamparinas alimentadas a alcool, e outros combustiveis psicadélicos.
Deve ser pecado um gajo divertir-se tanto, de tal forma é punido na proporção directa, quanto mais curtiu, mais depois se fodeu.
Mas será que Deus terá mesmo alguma coisa a ver com a ressaca? 
Não devia ter, bem pelo contrário, se Ele gosta de nos ver felizes, devia aplaudir, rejubilar, incentivar as nossas cabriolices, e depois em vez da dor de cabeça, podia ser só um sorriso sem jeito, porque afinal a piada ia-se diluindo.
Acabei de concluir que isto um gajo divertir-se a rodos, não é errado, é antes uma forma de expiar o pecado de desperdiçarmos tanta vida com comiserações, invejas, maus humores e outros odores que tais. 
Conclusão brilhante, apesar de óbvia, mas que espero lance um movimento de seguidores da doutrina da diversão limitada apenas pelo direito de todos à mesma.
Falta agora arranjar um Santo a quem rezar pelo alivio da ressaca.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Terei finalmente amadurecido, ou serão já sinais de podridão?

Estava agora mesmo aqui a pensar em quantas vezes já terei afiançado aos meus botões que agora é que é, que isto ou aquilo irá mudar?
Muitas vezes certamente, e recordo essas situações  com um olhar sobre um passado que parece alheio a mim mesmo. É verdade que já há algum tempo me deixei dessas vãs promessas, e até pode ser uma sensação momentânea, mas algo em mim aparentemente mudou, e não foi resultado de uma decisão tomada para o efeito.

Não interessa ao caso a explicação dos detalhes do que terá mudado, apenas a constatação de que há coisas que acontecem no seu próprio tempo, e não adianta de nada decidirmos que acontecerão antes.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Para que não me esqueça

Nunca subestimar a minha capacidade de me iludir.

Nunca subestimar a minha capacidade de me iludir.

Nunca subestimar a minha capacidade de me iludir.

Nunca subestimar a minha capacidade de me iludir.

Nunca subestimar a minha capacidade de me iludir.

Nunca subestimar a minha capacidade de me iludir.

Nunca subestimar a minha capacidade de me iludir.

Nunca subestimar a minha capacidade de me iludir.

Nunca subestimar a minha capacidade de me iludir.

Nunca subestimar a minha capacidade de me iludir.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Não tentem fazer isto em casa, a sequela

E depois acordei, sentia-me ainda cheio de sono e o sonho continuava claro, agora estou praticamente a dormir acordado e começo a duvidar que tenha sequer sonhado, acho que já não sonho há seis dias e seis noites.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Não tentem fazer isto em casa

Réguas de luz atravessam o quarto e esbarram na parede branca oposta às portadas fechadas, são finas como lâminas, e têm a densidade das particulas que nelas vivem em suspensão, às centenas, aos milhares, e só naqueles feixes de luz parecem existir, como um peixe dourado cujo mundo se resume ao globo de vidro em que habita.
Num qualquer filme de acção, ou ficção cientifica, atravessar tais feixes de luz poderia significar denunciar a minha presença, ou até ficar cortado em finas fatias de homem, e por isso deixo-me ficar imóvel, observando as estranhas formas dos nós nas tábuas de madeira que forram o tecto inclinado, enquanto a luz vai descendo na parede.
Desde que deixei de tomar medicação para dormir que me mantenho acordado sem esforço, já tinha ouvido dizer que é humanamente impossivel viver sem dormir, mas já lá vão seis dias e seis noites e mantenho-me perfeitamente desperto, sem esforço. As primeiras três noites passei-as deitado, a tentar dormir, nas quarta e quinta noites vi televisão, li, naveguei na internet, mas esta noite decidi passá-la deitado na cama, de olhos abertos na escuridão, e o tempo passou inacreditavelmente depressa, tive que ordenar os pensamentos para que eles não se atropelassem com a pressa de serem os primeiros, e percebi que disciplinar os pensamentos é dificil, mas não é impossivel.
Amanheceu e estou com uma sensação estranha, uma sensação de controle mas ao mesmo tempo de insegurança perante o desconhecido. 
Tenho imensa curiosidade em saber no que isto vai dar, mas terei que esperar e deixar passar cada momento ao seu próprio ritmo.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

o equilibrista, parte II

O Ernesto era assim mesmo, um artista do engate, marcava presença nos funerais à espreita de viuvas a precisarem de um ombro solidário, não perdia uma partida de um pesqueiro para as longas jornadas da pesca no mar do norte, sempre pronto a consolar as tristes mulheres que viam seus maridos partir para um destino incerto, e era assim o Ernesto, uma espécie de ave de rapina quando voava, mas quando voltava ao ninho, era ele, sempre ele, o alegre Ernesto.

A Sofia era um encanto de pessoa, uma espécie de matriarca do bairro, punha as cartas, mas só em casos muito especiais o fazia, porque segundo dizia, aquele era um dom que se gastava, e por isso não devia ser desperdiçado. A verdade é que ninguém se recordava de que alguma adivinhação tivesse resultado no que quer que fosse, o que não impedia que a dona Sofia fosse constantemente incomodada com o pedido de que pusesse as cartas.

Ora, era do conhecimento de todos que o Ernesto era o Ernesto, e sendo ele o marido da dona Sofia, era com alguma estranheza que qualquer estranho olharia o cenário, então o marido da adivinha era-lhe infiel a olhos vistos, e eram eles o casal mais feliz do bairro, como se explicaria então o crédito da Dona Sofia na arte da adivinhação?

Essa explicação só a poderia dar algum dos muitos vizinhos que a ela recorriam, e que mesmo muitas vezes com a recusa do pedido, nunca saíam de sua casa com o coração vazio, no entanto não é a explicação o mais fascinante nisto tudo, o que é verdadeiramente fascinante é que viveram felizes para sempre, a Sofia e o Ernesto, sendo que ficamos sem saber qual dos dois era o equilibrista.

domingo, 4 de setembro de 2011

O equilibrista parte I

Pela noite dentro, deixando para trás os últimos vestigios do entardecer, se olhasse por cima do ombro ainda veria o crepusculo, sabia-o e por isso não olharia para trás, mais à frente encontraria o alvorecer, e esse conseguia antevê-lo, sentir-lhe o cheiro de dia novo, podia desde já antever o dia de amanhã, perspectivar o futuro, porque o pensamento movimenta-se numa dimensão diferente, e percorre o tempo com a mesma facilidade com que percorre distâncias, com ele posso sonhar sempre que quero, e mesmo quando não quero, porque a consciência, essa entidade com um relacionamento tão chegado ao pensamento, é acima de tudo superior a essas coisas mundanas como o é o ciume, deixando o pensamento livre para as aventuras a que a sua natureza de entidade livre tão bem se adapta. 

É um relacionamento feliz o destes dois, consciência e pensamento, quando se conseguem manter em equilibrio, quando o pensamento tem o seu espaço próprio para além do partilhado com a consciência, mas não se esquece que a consciência é o verdadeiro ponto de referência.

Que não se tirem daqui mais elações acerca dos relacionamentos humanos, para além de que o equilibrio é essencial para relacionamentos saudáveis.

E era nesse jogo que o equilibrista apostava tudo, orgulhava-se das suas aptidões, levava o jogo ao extremo, estava na sua natureza caminhar sobre o arame, correr riscos para provar algo, que pode muito bem ser nada, a si mesmo.


Mais um convidado especial, desta feita, Michele Bonnet.


terça-feira, 30 de agosto de 2011

Mijinha ou Miginha?

Quem é que nunca esteve à rasquinha de mijar? Eu sei que devia dizer urinar, fazer xixi, ou até fazer um pipi, mas quando se está mesmo à rasquinha, é de mijar que se precisa, e não uma daquelas coisas mais soft.

Não devo precisar de descrever a sensação de bem estar que a satisfação de tão premente necessidade proporciona, acho eu, mas quem não souber a que me refiro, imagine-se num estado misto de grande satisfação e alivio, e sintonizará a estação em que emito.

Digo isto, porque de vez em quando devemos recordar momentos agradáveis.

Talvez me devesse dedicar a exercicios de contenção urinária, quem sabe iniciar um culto, uma forma de compreender que na vida para se atingir a recompensa há que fazer sacrificios.



sábado, 27 de agosto de 2011

Finalmente o fim de algo

E então tinha surgido essa criatura encantadora, a quem por falta de melhor, dou o nome de RitaAlice, que me perdoe a própria pela usurpação do nome, mas era o que estava mais à mão, e para que não comece a tornar-se cansativa a sua repetição, sempre que se ler RA, leia-se o nome da tal inusitada criatura.
Mal chegou à terra, deparou-se com o primeiro problema, ela própria, quem era, de onde vinha e para onde iria? Aquela fusão de identidades tinha-lhe baralhado completamente todas as recordações. Sentia-se especial, não sabia porquê mas sentia que existia em si um encanto a que as superficies espelhadas não faziam justiça, era muito mais que aquilo, e sentia que tinha uma missão, algures alguém esperava por ela, mas onde e quem?
Certamente alguém necessitaria dela, e por isso começou a deitar a mão a quem lhe parecia em dificuldades. 

Um rei que via o seu reino em decadência, a RA vertia sobre ele toda a sua aura de encanto, e inspirado o monarca tinha encontrado a resposta aos seus problemas, percebendo mais tarde, tarde de mais, que um encantamento não é mais do que isso, a não ser em contos de fadas.

Um mendigo cuja resistência chegava ao fim, a quem a RA afagou com o seu olhar, por um segundo, que ao mendigo pareceu uma eternidade, mas que não foi mesmo mais que um curto segundo.

Um nadador salvador, coisa improvavel nos anos de 1650 e tal, e que tinha um fato de banho às riscas, fazendo lembrar um escaravelho da batata, e que heroicamente patrulhava a costa vicentina, a quem a RA quis dar significado, e para isso encarnou uma sereia, que o nadador salvador perseguia, na ânsia de salvar a mulher mais bela que já tinha olhado para ele, mas pobre nadador salvador que não imaginava perseguir alguém que o ia deixar afundar, quando parecia que finalmente o seu destino de nadador salvador se estava a consumar.

E foi assim que a RA consumiu a sua existência, como uma miragem, oásis em desertos de esperança.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

As aventuras de um escaravelho da batata

Era uma vez um escaravelho da batata que decidiu mudar de vida, sabia que tinha nascido escaravelho da batata, mas não sabia porquê, era um inadaptado, só lhe apetecia ir para a praia no verão e apreciar a paisagem, ainda haveria de ser nadador salvador, desse lá por onde desse.
Acontecia o ano de 1654, e nesse tempo a ideia de ser nadador salvador era algo que só poderia vir assim de um visionário, e então deus, na sua imensa sabedoria enviou à terra um anjo para ver no que aquilo poderia dar, e ao mesmo tempo o diabo estava com as mesmas ideias, que raio, um escaravelho da batata visionário? E decidiu ele também enviar à terra um demónio, não fosse dali poder ainda vir a tirar algum proveito.
Ora, os anjos e os demónios não podem entrar assim na terra, como se para isso bastasse um estalar de dedos, tinham que percorrer determinado caminho, e num determinado ponto havia uma espécie de espelho de água, que na vertical desafiava qualquer lei da gravidade.
Acontece que ambos chegaram a esse espelho ao mesmo tempo, e no mesmo exacto momento o atravessaram. Poderia ter acontecido tal coincidência, como aparecer uma agulha num palheiro, e ocorreu, entrando dois de um lado, saiu só um do outro lado, do lado de cá, na terra, e esse só um era uma, com um lado angelical e outro lado demoníaco, o que não poderia resultar senão numa criatura encantadora.

domingo, 21 de agosto de 2011

A viscosidade do tempo.

Parecem-me as horas de ninguém, nem consigo dizer se o tempo está a passar rápido e fluido como a água, ou lento e viscoso, de vez em quando lembro-me dele, de como se esgota, rigoroso, segundo a segundo, sempre exacto, tão ao contrário de como o sinto, elástico . 
Sim, porque o tempo é elástico, então pois não é? É pois!
Claro que a elasticidade do tempo, é uma realidade tão palpável na vida de todos, que seria um atestado de incompetência à inteligência de cada um, pôr-me para aqui a explicar tal coisa, mas que é elástico é, como deve entender quem sobre isso reflectir.
E posto isto como um facto inquestionável, que venha agora quem dê a explicação científica, ou até quem se limite a pegar no seu, e testar-lhe a elasticidade.
Eu, pelo meu lado constato que se acabaram as férias, e amanhã de Manhã, o mundo volta a ser a preto e branco.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O balanço

Pareceu-me que acabei de ouvir o som da maquina registadora da vida, como se a minha tivesse decidido agora registar mais um dia, passou-me o momento pela frente dos olhos, e lá vai ele, sem olhar para trás ciente do dever cumprido, mais um dia, e agora que falei nisso ocorreu-me que ao dizer o que disse, é normal que faça um balanço. 
Fazer o balanço é um dos actos mais básicos de qualquer empreendimento que se queira levar em frente, e reconheço que não tenho nada para colocar nas balanças, nem qualquer empreendimento.
E fico na duvida de se devo regozijar-me porque afinal estou de férias, ou se devo aproveitar as férias para pensar nisso.
É bom estar de férias, sem nenhuma preocupação a não ser ver o tempo passar, fora do cardume, mas não sei se síndrome de abstinência, ou o que seja, faz-me sentir falta de rotinas.
Se pudesse fazer férias por um ano, era o que fazia neste momento.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Afinal sempre há esperança



Vê-se numa pequena nuvem branca de tão ténue consistência, quase invisível , pouco acima da linha do horizonte, que não se mexe apesar da ventania, vê-se num enorme chupa-chupa de cores berrantes espetado na areia, vê-se nos pequenos bocados de chantilly que correm à frente das ondas, ouve-se na risada das crianças, e sente-se na sua alegria tão genuína, sente-se que há coisas tão belas, que poder apreciá-las é um privilégio, diria mesmo um milagre.


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Junkie Jones foi à praia

Assim ao estilo da Anita no baile infantil, ou da Anita faltou à escola, dou inicio a um périplo pelas minhas andanças, périplo que é certo e seguro acabar aqui, porque temas recorrentes são duramente recusados pela critica feroz.

Sendo assim, e como é verão, fui hoje à praia, mas já não fui para aquela praia cheia de gente, ali perto das esplanadas e dos parques de estacionamento, fui para uma daquelas praias mais afastadas, onde há espaço à vontade para toda a gente. Nem sequer foi preciso procurar muito, os meus olhos ofereceram-me logo o melhor lugar da praia, que me apressei a ocupar.

Por manifesto azar, ou não, aquele lugar deixou de ser o melhor da praia tão rápidamente quanto as duas morenaças ao lado de quem me deitei, se levantaram e mudaram de lugar mais lá para a frente, enquanto abanavam a cabeça com ar de reprovação.
Fiquei-me assim com um lugar porreiro, mas já não o melhor da praia, talvez o segundo melhor, porque afinal estava na minha própria companhia, e posso não ser duas morenaças, mas é comigo que tenho que me deitar todos os dias.

É pá, não sei porquê, mas isto não acabou como eu estava à espera.

Pode ser que me lembre de vir cá escrever mais alguma coisa, assim um pouco de alecrim, para lhe dar um sabor a caça, e mais alguns episódios de que agora por força das circunstâncias não me estão a ocorrer.

E agora?

Estou altamente frustrado.

Tentei arranjar uma quezilia entre gajas, e fui mal sucedido, nem lá perto cheguei, o mais perto que consegui chegar foi ter sido chamado de "arte do demo".

Nem era bem uma quezilia, era mais uma tertulia, e estava a pensar vender bilhetes para o espectaculo, até já tinha reservas, e agora nada. Que é que faço às bancadas alugadas?

Desfilo?

domingo, 7 de agosto de 2011

A frase do dia

O tempo é o diluente da vida.

E pegando na frase do dia, vou seguir a corrente e deixar-me diluir no tempo, esperando que o tempo não cólhe.
Hã?
Usei aqui um termo ousado, "cólhe" de cólhar, acho que as senhoras me percebem, a não ser que este seja mais um termo usado somente aqui por estas bandas.
E por falar nisso aqui está outra curiosidade, fugas e dores de burro são a mesma coisa, sendo que aqui por estas bandas, como não somos burros, temos fugas.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Textos pedidos, este sobre a loucura

Eu, que sou um gajo que percebe nada sobre o assunto, não me coíbo de me fazer as perguntas que se me impõem ao pensar no assunto.
Afinal a loucura é o quê? Loucura tem a ver com o pensamento, não é? Tem a ver com as percepções, com os sentimentos, não é? Não se trata de um desarranjo intestinal que degenera na famosa cagadela de esguicho, não é uma artrose a dar cabo da agilidade, e quem diz agilidade diz juventude, agilidade e juventude, que parelha, mas prosseguindo, loucura é um mau funcionamento do cérebro, isto assim de uma forma simplista, porque acho que ninguém ainda deve ter a resposta cientifica final sobre as profundezas do cérebro.
Mas sendo um mau funcionamento do cérebro, é ainda por cima algo que se mede de forma perfeitamente subjectiva, não dá febre, não faz cair as orelhas, nem o cabelo. 
Simplesmente, o louco, comporta-se de uma forma desadequada ao convencionado, e se isto é ser louco, então eu sou louco, todos somos um pouco loucos, ou melhor, todos ambicionamos ser um pouco loucos.
Então a loucura não pode ser somente comportamento desadequado, até porque já toda a gente percebeu que os comportamentos adequados ao convencionado são eles próprios sinal de loucura, quem já não se questionou sobra a vida que leva e as motivações?
E sim, há as esquizofrenias, as psicopatias e sei lá quantas mais tias malucas por vias de sentirem mais do que comporta a sua capacidade de retenção.
Talvez sejamos todos um pouco loucos, e sendo assim há uma divisão que se impõe fazer desde logo, uma divisão básica, no entanto essencial.
A divisão entre os loucos bons e os loucos maus? 
Aí sim, está a questão, e poderá considerar-se como linha divisória o respeito pelos sentimentos alheios?
Obviamente que sim, no entanto lá se coloca novamente ténue a linha divisória, desta vez ténue sobre as diferentes perspectivas, porque quando se começa a falar de que para tudo há diferentes perspectivas, é como dizer que a realidade está submersa num nevoeiro que se pode adensar e destrui-la.
Portantos pá, e se ainda não me perdi, onde está a linha consensual no que diz respeito ao que distingue o são do insane? Consensos pá, consensos é coisa de desconfiar quando se trata de gente, portanto deixemos esta questão até que sejam apresentadas provas cientificas, e até lá que Deus nos ilumine para fora das trevas da maldade.

hic.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Ligaram-me do Guiness book of records, a dizerem que foi uma boa tentativa, mas que não aceitam mais recordes batidos em Portugal

Depois desta honrorosa maratona de comentários, que muito me honra pela adesão demonstrada pelas minhas comentadoras, mas também me horroriza pela falta de qualidade generalizada dos comentários feitos, aproveito para reformular o sentido deste blogue, a sua razão de ser, e quem sabe o seu destino.

Já não tenciono matar-me, já não será definitivamente este blogue a história anunciada de uma subtracção, mas antes um estertor da minha paranoia.

Só faltava agora que já decidi que não me vou matar, acontecer algum acidente e eu morrer.

Algum acidente assim do género de não me apetecer mais vir para aqui escrever, será para quem cá vem ler, o mesmo que a minha morte, tão simples quanto isso, não é?

E anda para aqui um gajo em trocas de comentários até aos duzentos.

Quem são vocês? Pá?

sábado, 30 de julho de 2011

O meu nome é Fire, SpitEfire

Sem pachorra para grandes caminhadas, decidi-me hoje a encontrar um lugar no meio da multidão de veraneantes, que por ali abancam junto ao mar, nos locais mais próximos das esplanadas e parques de estacionamento, até foi mais fácil do que esperava, a maré estava a descer, e o areal ia ganhando terreno ao mar, lentamente. Normalmente procuro locais onde possa ter só para mim uma area que possa ser expressa em m2, com dois dígitos à esquerda da virgula, e se possível até, atingir os três dígitos, mas hoje não estava para isso, e o local até era agradavelmente bem frequentado conforme opinião das minhas pestanas que lá se foram deliciando com bronzeados em corpos extraordinariamente femininos.
Um dos meus desportos favoritos na praia é dar uns mergulhos, fumar um charro, e ficar ali a sentir o corpo secar ao sol, e os miolos a derreterem.
Como de costume, inicialmente a sensação de que não estou bem ali, uma sensação de não pertença, a presença das vozes que me rodeiam aumenta consideravelmente, mas com o passar do tempo, e com o leitor de mp3 a fazer a selecção musical, as vozes começam a afastar-se, a sensação de espaço aumenta, o passar do tempo a diluir-se, e o pensamento divaga entre as recordações e os sonhos acordados, tanto podia estar ali como quando me lembrei de ir ver o que era um chat.
Na entrada tinha que escolher um nick, e que nick escolher, tanto fazia, a primeira coisa que me veio à cabeça foi spitfire, que escrevi com um erro propositado conforme o som que se formou no meu pensamento, Spitefire.
Aquilo dos chats, que eu tinha como coisa ridícula, começou a parecer-me interessante, muitos nicks a comentarem o que muito bem entendiam, várias conversas decorriam ao mesmo tempo, e como era divertido mandar umas bocas lá para o meio, e como me divertia quando aqueles mais atentos replicavam que o meu nick estava mal escrito, ou respondiam às minhas provocações, aquilo era o terreno ideal para descarregar toxinas, e até fazer exercício cerebral, porque nem todos os que por lá andavam eram burros de todo, alguns sim, mas nem todos.
Também havia a modalidade conversa privada, onde poderia entabular conversa com outros nicks, e essa era outra das minhas distracções, chatear quem por lá andava, e como era divertido.  
Poderão estar agora a pensar que eu devo ser um merdoso de um implicativo, que usava aquilo para destilar as frustrações, e podem pensar isso com toda a propriedade, mas não é para fazer a defesa do meu comportamento que aqui estou, estou só a relembrar o local por onde deambulei hoje à tarde na praia.
E como ia dizendo, havia as conversas privadas, e foi aí que conheci a RitaAlice, a personagem do post anterior, nessa altura com outro nick.