terça-feira, 26 de abril de 2011

A inconsistência

Agora o assunto é delicado, muito delicado.

Principalmente para mim, pessoa bastante incompetente neste campo, o das boas relações humanas.

Nem toda a gente partilhará desta opinião que acabei partilhar, mas estou certo de que quem esteja a ler estas linhas e tenha lido algumas outras neste sitio, partilhará comigo desta opinião.
Razões para tais opiniões tenho eu semeado por aqui, opiniões que rápidamente crescem, florescem, e dão o fruto, que não poderia ter outro sabor que não o amargo.

Outras pessoas haverá, noutros sitios, que discordariam ferozmente de tal opinião, mas essas terão as suas razões que eu complacentemente aceito, apesar de as saber erradas, e saber que estão a confundir as coisas, ou talvez eu esteja aqui a misturar dois conceitos, o saber fazer e o ser.

Aqui falo do saber fazer, neste caso do saber criar boas relações, do construir, das técnicas de erigir tais edificios, de lhes dar forma, conteúdo, projecta-las no espaço e no tempo, e é aí que entra a minha incompetência.

Sem descrições, tentativas de defesa, ou justificações, admito-me incompetente no criar de boas relações, simplesmente não as sei construir, e até gostava, mas tenho este dom merdoso.

Nada de miserabilismos, apesar de não as saber construir sei o que são, também existem entre mim e outros, só que não as construí, foram elas proprias crescendo, criando raízes, lançando tronco, ramos, folhas, flores e também deram frutos que têm um sabor, que descreveria como confortante, porque não lhe consigo arranjar outro adjectivo.

Sim, ou melhor, não, não há muitas coisas que me choquem mais do que a inconsistência das relações humanas. Sim, sim, já me aconteceu que um forte relacionamento entre mim e outra pessoa se desfizesse, mas sempre foi das coisas mais dolorosas que me aconteceram, uma espécie de membro amputado, que continuará a fazer sentir a sua dor fantasma enquanto a memória não se fechar sobre si mesma.

As palavras têm o valor que lhes atribuirmos.
Aqui pertinho, no tempo e no espaço, foi-me oferecido um dos frutos mais amargos que alguém me quis oferecer, mas não lhe senti o gosto, adivinhei-lhe o sabor nas palavras escolhidas com uma mestria muito para lá da minha capacidade de sentir, o sabor da inconsistência das relações humanas.

8 comentários:

  1. Estou como dizia a minha avó, podes não servir para ajudar, mas desde que não estorves... já não é mau. Beijos.

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  2. Beijos para ti também, que isto de distribuir beijos é fixe.
    Estorvar eu ? Mas eu lá sou gajo de estorvar seja o que for ?
    Tu pôe-te à vontade Jacklyn.

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  3. Meu querido, Junkie, receio não o ter compreendido, mas aqui, bem pertinho, no tempo e no espaço, a primeira "relação humana" genuína deve começar por ser aquela que estabelecemos connosco. Ninguém dá o que não tem, ninguém "representa" tão bem, ao ponto de Ser o que não é, não por muito tempo, nem neste restrito espaço. Relações humanas?! Serão afectos?! Se sim a coisa piora. Quanto aos sabores são como os gelados "olá", variam. E tal como os referidos gelados ("sazonais"), têm um prazo de validade, por norma curto. Também os há estragados, e aí temos intoxicação pela certa.

    Quanto ao título assustou-me, li "incontinência"! Isso sim, assusta-me, é que não vamos para novos. E não me venham coisas voltar a usar fraldas é envelhecer de forma indigna. (E falo das descartáveis, que essas sim, são uma verdadeira (autêntica) ralação humana.

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  4. Um anónimo tratou-me por querido, e falou de si mesmo de forma que me pareceu franca, e por isso mesmo respondo-lhe ao susto que apanhou a ler o titulo, sabe, acho que todos deviamos ter direito a ter um botãozinho acessivel com a função "Power Off".
    Este devia ser um dos direitos básicos de qualquer ser humano, quanto à forma como encaramos as relações com outras pessoas, esse é outro dos direitos básicos do ser humano, o direito à diferença, estamos plenamente de acordo.

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  5. Junkie, sorry (adoro este recurso estilístico, bem ao jeito desta mui humilde parola chique, rendida aos estrangeirismos), esqueci-me da respectiva, distinta e assumida assinatura.

    AuraMaria

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  6. Mas querida Aurocas, se te tivesses identificado poderia este mui sofisticado animal, ter-te replicado com uma mais personalizada resposta.

    As tais diferenças a que temos direito e em que estamos plenamente de acordo, usando os gelados da "olá" como exemplo prático, poderia colocar-se da seguinte forma:

    Enquanto tu estás com o gelado na mão, esquecido a derreter-se, e a tua cabeça já está nos sabores dos gelados da próxima temporada, eu nunca conseguirei imaginar um catálogo da Olá sem o “Epa”, os “Cornetos”, o “Perna de Pau”, entre outros que ficarão para sempre, e na minha cabeça ainda existe o sabor de um ou outro gelado que surgiu e desapareceu numa temporada passada.

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  7. Junkie, foi mui fina (vá, requintada) a resposta de Vossa Excelência à minha tão recatada pessoa, sois um cavalheiro, uma clarividente, enfim, um verdadeiro tradutor de almas! Mui grata, por saberes tanto e melhor do que eu sobre todas as coisas, "todos os nomes"!
    Cumprimentos (eternos)
    AuraMaria

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  8. Vá lá Aurocas, deixa-te de merdas e finezas, que eu gosto de ti mais grossa, fica-te melhor, e é mais saudável que esse comentáriozinho delicodoce.

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