domingo, 10 de abril de 2011

A minha sombra



Esta historieta aconteceu há muitos anos atrás, numa daquelas noites em que a lua ganha um brilho hipnótico, e convida a segui-la , com passadas pequenas e pensativas, decidi não declinar o convite e lá fui, sem destino, tão a direito quanto me permitiam os obstáculos físicos, sem reparar em nada que os meus olhos vissem, vendo somente com o pensamento que corria perseguindo em pequenas correrias, fantasias em que eu entrava como personagem de um filme sonho,  como o vento brinca com as folhas de Outono.

De tão imerso nos meus pensamentos seguia, que estremeci ao perceber um vulto ao meu lado, estremeci e sorri, por que não passava da minha sombra que me acompanhava, milimetricamente cada passada, cada desequilíbrio. Não era assim tão milimetricamente, porque se esticava, encolhia, atrasava ou adiantava em cada mudança de direcção, e aí esqueci a lua e passei a seguir a sombra, a observa-la, a imitar os seus movimentos, os seus passos, e indagando sobre os seus pensamentos, se também os estaria a seguir.

Cada vez mais apressada ia a sombra, com leveza seguia à minha frente, já não contornava certos obstáculos, o que me obrigava a um esforço suplementar de avançar por sítios que já não eram caminhos, declives íngremes, vegetação densa, e já não havia pensamentos a deambular como o vento, mas uma atenção concentrada em manter a respiração regular.

De um momento para o outro, o terreno mudou, tornou-se plano e arenoso, uma areia que me agarrava os pés, atrasava o avanço, permitindo que a sombra se começasse a afastar, e só aí percebi que a sombra estava entre mim e a lua. Esta constatação foi como um raio gelado me percorresse a espinha e atingisse o cérebro com tal violência, que paralisei, e fiquei ali a seguir a sombra somente com o olhar, até que a vi parar e levantar o braço sombra, com o dedo indicador sombra, esticado a apontar.

Não sei quanto tempo passou até que me conseguisse mover de novo, e aproximar-me, aproximação cuidadosa, como se a sombra pudesse assustar-se, recomeçar a fugir, e eu a pudesse perder para sempre. Coloquei-me estrategicamente entre a lua e a sombra, da forma mais paralela que consegui, decidido a recuperar a minha sombra adoptando uma posição estática. Da próxima vez que me mexesse, ela é que me seguiria e não o oposto, e foi aí que reparei que o dedo sombra apontava algo no chão, um pequeno objecto arredondado e branco. Com a atenção concentrada agora naquele objecto, nem me apercebi que ao baixar-me para lhe pegar, a sombra seguia os meus movimentos, era uma pequena pedra arredondada, achatada e branca, algo muito normal, tão ao contrário de tudo o que estava a acontecer.

Procurei a minha sombra, e lá estava ela, na direcção oposta à da lua, a seguir cada movimento que eu fizesse, e o meu pensamento voltou, com grande nitidez, colocando uma voz na sombra que disse o seguinte “A partir de agora os meus movimentos serão novamente teus, mas os teus pensamentos serão meus”, guardei a pedra no bolso e mantive-a perto de mim deste então.

Isto passou-se há seis anos atrás, hoje a pedra voou para o fundo do mar, e espero que isto seja um dos passos para voltar a ser dono do caminho dos meus pensamentos.

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