quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A Ostra e a Flor

O  cordão das dunas desenhava a linha delimitadora do fim do mundo, na mente das duas irmãs, juntas desde que se lembravam, nada havia para lá daquelas dunas, só a morte, e era lá que o sol morria no final de cada dia.
De recordação, agora, pouco mais havia que o rosto moribundo da mãe a pedir-lhes que não fossem para lá das dunas, preso à retina de ambas, na noite escura, e em cada noite a jura silenciosa de que não iriam para lá da duna.
A fotografia esbatida de um homem muito sério, era a unica referência que tinham daquele que teria sido a figura paternal, e que tinha ele próprio perecido para lá da duna, engolido pelo fim do mundo, tinha-lhes contado a mãe pouco antes do seu olhar se ter afundado pela ultima vez na areia branca do entardecer.
Eram irmãs, mas ninguém diria, uma tinha o cabelo negro longo e maltratado, olhos negros onde não se distinguia a pupila, da íris, mas que brilhavam como a estrela mais brilhante, uma pele que deveria ter sido muito branca e macia, não tivesse sido a varicela que a atacou violentamente, deixando a irmã incólume, a irmã cujos olhos verdes reflectiam uma tristeza indefinível, a irmã que era de uma beleza tão indescritível como a tristeza do seu olhar. Cabelos amarelos, a pele perfeita, e um olhar perdido, sereno e triste receberam as primeiras pessoas que viam as irmãs, para além da mãe, a mulher louca que de vez em quando aparecia na povoação, a mendigar, e sobre quem pesava o passado de ter enlouquecido após o marido um dia não ter voltado da faina no mar.
Naqueles dias a noticia tinha feito capa de jornais durante tantos dias quantos a avidez por coisas deste género o permitiram, e depois perderam-se num asilo, perderam-se uma da outra, a de cabelos amarelos tinha sido adoptada em poucos dias, mas a de cabelos negros ficou por ali, e não permitiu que quem quer que fosse se afeiçoasse pela sua fealdade, a vida não foi fácil para ela, os dias sempre árduos, empenhada no bom funcionamento daquela casa abrigo, tornou-se ela própria parte da casa, confundiu a sua felicidade com a de todas as crianças que ajudaram, e um dia, muitos, muitos anos depois, voltaram a encontrar-se, as irmãs.
A que tinha sido adoptada, contou com um olhar triste que a sua vida tinha sido feliz, sempre rodeada por beleza, mas nunca tinha feito nada a não ser fazer parte da beleza que a rodeava, que agora toda aquela beleza estava a desaparecer, e perguntou :
- Lembras de como a mãe nos chamava? Nunca contei a ninguém. 
- Sim lembro, e também nunca contei a ninguém, eu era a ostra e tu a flor.

19 comentários:

  1. Houve uma flor que nasceu muito frágil e desprezada. Quando começava a ganhar raízes em terra fértil, jardineiros mágicos e poderosos resolveram arrancá-la e transplantá-la para terreno sombrio e árido, pejado de ervas daninhas. Num dia de vento, ganhou forças e soltou-se. Uns dizem que voou até às estrelas, outros que vive no fundo do mar.

    Há decisões que podem ser adequadas mas que, por surgirem no momento errado, se tornam profundamente nefastas.

    Junkie, lembrei-me disto porque falaste numa flor.

    ResponderEliminar
  2. Ó Maggie, tu insplica-te pá, que não percebi puto do que comentaste.

    Primeiro vens para aqui com estorinhas, segundo, queres contar estorinhas arranja um blog para ti.

    Esta eram as duas primeiras, terceira, tu insplica-te pá, que eu gosto das coisas ali, nuas e cruas, sangue na carne e tutano no osso.

    Se te faltar a tinta, escreve com o próprio sangue, mas nada deixes por insplicar.

    ResponderEliminar
  3. Peço desculpa por ocupar espaço.

    O teu post, ao falar de flor e asilo, fez-me lembrar um caso de uma jovem que foi enviada para uma instituição, pelas entidades tidas como competentes, num timing completamente errado e que deu merda. Foi só isso.

    ResponderEliminar
  4. Tu ocupa lá espaço à vontade, que o que não falta aqui é espaço e liberdade de expressão, até para tudo, tudo!

    ResponderEliminar
  5. Não escrevi com o meu sangue mas espero que tenhas ficado esclarecido acerca do conteúdo da minha despropositada estorinha.

    ResponderEliminar
  6. Gosto da dinâmica que imprimes ao teu blog. Fui fazer xixi e quando voltei já tinha um header novo.
    Agora o que é?
    Representa algum ritual que inclui cabeça de porco espetada num pau? Ou é um concerto do Tony Carreira?

    ResponderEliminar
  7. Além de te ficado mais esclarecido acerca da tua estorinha, fizeste-me lembrar alguém.

    De resto é só paisagem, decoração.

    ResponderEliminar
  8. Prometo que nunca mais conto estorinhas.
    A boca do blog atingiu-me no coração. Que mau que tu és, Junkie!

    O header até está porreiro, assim a puxar ao surreal.

    ResponderEliminar
  9. Gostei do texto.

    Não vou dizer mai nada, que qualquer ilação dali tirada (pelos vistos e com base em experiências anteriores) é corrida a pontapé. Como não gosto, dói-me e põe-me toda negra, fico-me pelo que disse ao principio.

    ResponderEliminar
  10. Olha Junkie, podes correr-me a pontapé, dar-me nas orelhas, o que quiseres. Hoje tive uma tarde tão má, mas tão má, que nem vou sentir nada!

    ResponderEliminar
  11. Ó Isa Maria, o teu comentário estava ali num separador para spam.
    Peço desculpa pelo facto a que sou alheio, mas que me apressei a corrigir e repor a liberdade de expressão em toda a sua latitude, até na mentira.

    ResponderEliminar
  12. O terreno está à venda?
    O local é bonito e sossegado.

    ResponderEliminar
  13. Foda-se! Então já foi vendido? C'azar o meu!

    ResponderEliminar
  14. Isto é o túnel da João XXI?

    ResponderEliminar
  15. ahahahahahahha

    "até na mentira", diz o susto.

    ResponderEliminar
  16. Ó Junkie, tu a mudares de header consegues ser mais rápido que o isaltas a sair de cana!
    Até estou com tonturas de tanta rapidez!

    Que saudades daquele terreno, tã lindinho, tava a pensar comprá-lo para plantar lá uma bibenda, tipo cocoon. Não é cocó, é cocoon!

    ResponderEliminar