sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O vagabundo

Surpreendido com o que ia ouvindo aqui e ali das conversas alheias, normalmente nem lhes prestava atenção, mas ultimamente era evidente uma anormal agitação, e quis saber.
Normalmente aproximava-se o menos possível das pessoas, vagueava pelo país fora, e maravilhava-se com a natureza, mas admitia as vantagens da vida em sociedade, assim por vezes aproximava-se, e pedia um pouco de solidariedade, coisa humilhante, mas era uma sensação que tinha aprendido a superar envolvendo-se o menos possível. Imaginava-se a pescar, e estava habituado a esperar horas que um peixe mordesse o isco, às vezes em condições adversas, por isso as tais sessões de humilhação não eram mais do que condições adversas até que obtivesse o que precisava.
Não foi preciso muito, bastou ficar atento às conversas durante algum tempo para perceber que a agitação era por causa de dinheiro, o estado ia estrangular a população para conseguir fazer face às tropelias feitas por anteriores governos. A revolta era geral, percorria todos os sectores da sociedade, e aparentemente avizinhavam-se tempos conturbados, com cortes no dinheiro que as pessoas auferiam, e a ameaça  de alguma revolta popular para além das conversas de café.

Outra coisa de que se apercebeu, agora que tinha despido a capa de pescador de solidariedade, era que contrariamente à atitude diferente das pessoas na forma como se exprimiam e se organizavam, mantinha-se igual a repulsa indisfarçada que sentia nos olhares que lhe dirigiam.

O melhor que tinha a fazer era continuar no seu caminho, desviando-se por vezes para umas pescarias de solidariedade, que talvez se tornassem mais difíceis nos tempos próximos, mas tempo não lhe faltava. O que lhe faltava era perceber porque é que as pessoas se indignavam com as medidas de austeridade, mas não davam igual atenção a medidas que evitassem que estas situações acontecessem. Daqui a 10 anos outros políticos terão feito negócios ruinosos para o país, extraordinariamente proveitosos para si próprios, e sairão impunes.


O gajo era vagabundo, mas não era burro.

9 comentários:

  1. Os negócios ruinosos não contam toda a história da situação a que chegámos e, ao contrário do que nos querem fazer crer, a austeridade, esta miséria que nos querem impor, não é uma inevitabilidade. É reveladora de uma incapacidade para governar aliada a um plano que quer transformar este país num lugarzinho de mão-de-obra barata, paraíso para poucos e inferno para muitos. Como todos sabemos, e até a "velha senhora":) se referiu a isso, o meio que estão a usar para atingir esse fim é estraçalhar- não digo "foder" porque não é suficientemente forte para descrever o que este governo está a fazer - a classe média de alto a baixo. É dos livros, sem classe média ardeu a tenda, ficamos pobrezinhos, a morar longe e com belos campos de golfe onde apenas apanhamos as bolas.

    Junkie, se fosse fácil para o cidadão comum evitar que essas situações acontecessem também conseguia detectar o rol de mentiras e promessas vãs com que nos manipulam em tempo de eleições. E acertávamos sempre no partido que convinha ao país. E não tínhamos os Passos e os Relvas da vida a fazer estragos.

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  2. A única coisa boa da desgraça ou da dor é que serve para abrir os olhos a quem vive de enganos e mentiras e se alimenta de ilusões (porque quer e porque é estúpida). O "estado de graça" acaba sempre para quem faz dos outros parvos. Também será assim com estes idiotas. Quanto à impunidade, cada um tem de viver com a sua consciência, pelo menos aqueles que a têm.

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  3. Eu compreendo que a questão da responsabilização criminal dos políticos é algo de muito complexo, e cujos limites sofreriam constantes tentativas de manipulação, mas é por demais frustrante ter que aceitar determinadas coisas, como por exemplo a forma como foram feitos os contratos das PPPs. Dizer que o castigo será concretizado nas próximas eleições, parece-me por demais insuficiente.

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  4. A distinção entre responsabilidade política e criminal parece ser difícil de fazer e, sobretudo, pode, com facilidade, dar azo ao que referes.
    Também não me sinto democraticamente satisfeita em pensar que apenas devo demonstrar o meu repúdio através do voto.
    Bem sei que os cidadãos eleitores estão representados na Assembleia da República, só que os deputados representam de facto as estratégias dos partidos,
    Ocasionalmente acontecem excepções. Foi o que aconteceu com a última intervenção do deputado João Galamba. Eu que votei PS, senti-me, nessa ocasião, verdadeira e dignamente representada.
    Ainda por cima tem carradas de bom aspecto :)

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  5. Pena é que esse tal de João Galamba não se tenha indignado quando o governo do seu partido fez os montes de merda que fez.
    Teria sido de valor se tal discurso viesse de alguém da bancada do partido do governo, mas até ver tal não se verificou.

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  6. Ser do Sporting:

    " 20% dos sportinguistas têm pouco ou nenhum desejo sexual. E só 2% têm sexo mais de quatro vezes por semana"

    (in Revista, Expresso)

    Como é bom ser do SLB! :))))

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  7. "Just a perfect day
    drink Sangria in the park"

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  8. Este ainda vai ficar conhecido como o Setembro quente.

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