domingo, 20 de setembro de 2015

O ovo que invertia a marcha

Era uma linda borboleta, mais linda que as demais, tão linda quanto eu seria capaz de idealizar. O seu vôo, mais do que belo, era hipnótico, fazia—me acreditar que também eu voaria. Por onde as suas asas volteassem, eu também lá estaria. Só isso teria cabimento naquilo que parecia ser o desígnio que me estava reservado pelo suceder de acontecimentos que me entregaria lá, onde estaria escrito com tinta indelével, “final feliz”.
..... Tempo.....
É do conhecimento geral que a vida não rebobina, que os rios não sobem do mar para a nascente, que os ovos não voltam ao cú da galinha. Mas eis que, para meu enorme espanto, a borboleta metamorfoseia-se em crisálida, é verdade, metamorfoseia-se a gaja! O elaborado padrão das suas asas, a profusão de cores, o vôo solto e leve, deixou de ser, tornou-se essencialmente ausência.
....... Tempo .....
Voltei a vê-la borboleta, era ela, mas já não era a mesma, uma graça desengraçada, cores mal combinadas, voar desajeitado. Petulante, não sabia que o encanto tinha desaparecido, e tudo o que tinha de maravilhoso, agora pouco mais parecia do que ridículo.

Falta-me concluir sobre a substância da realidade tal como a percepciono, mas também, seria das tarefas mais inúteis a que me poderia propor.

2 comentários:

  1. Estou aqui a pensar se alguma vez gostei tanto de te ler.

    Não. Nunca.

    ( O tempo... ah ... o tempo...)

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  2. Sim, estou a ficar com um estilo requintado, é verdade.
    Deve ser do tempo.

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